Depois da Longa Noite

Texto ridiculamente grande e acumulado durante a Longa Noite sem internet:

Sábado, 5/07/2003, 11:38

Agora é hora de falar do Transhuman Space. Já escutei falar muito bem desse livro, e, tendo olhado os arquivos de playtest antes, não concordei com várias coisas que foram ditos a seu respeito. Transhuman Space não é um livro “visionário”, pois todas as suas idéias já apareceram em outras obras de ficção científicas, muitas vezes melhor

exploradas.

No fundo, THS não é muito diferente da ficção científica cyberpunk tradicional, o que em termos de RPG já é um grande avanço, já que nenhum dos jogos anteriores retrata o cyberpunk de forma fiel. O que muda aqui é que uma máscara de “smiley” (Have a Nice Day!) foi afixada no cenário para tapar sua sujeira. As tecnologias são as mesmas, assim como muitas de suas implicações culturais, mas os autores são impiedosamente otimistas. Para se ter uma idéia, a parte do livro que fala sobre as principais nações da Terra em 2100 começa dizendo que as sociedades humanas continuam “basicamente capitalistas e igualitárias”, o que implica que eles consideram que o mundo de hoje possua as mesmas características. Já eu acho que uma sociedade não pode ser igualitária de verdade se for completamente capitalista.

A impressão que é passada e que o desenvolvimento tecnológico ocorreu sempre da melhor forma possível, e que as tecnologias largamente utilizadas pela humanidade são todas perfeitinhas e livres de defeitos. As incríveis alterações pelas quais os seres humanos passam são nada mais do que a conseqüência natural da evolução científica, já que ninguém possui preconceito de qualquer espécie e nem tem objeções a se tornar um programa de software ou um ser bizarro e compridão, adaptado ao espaço. Diferentes nações possuem visões variadas sobre isso, claro, mas a impressão que fica é que todas as diferenças se resolvem simplesmente com uma amigável discussão filosófica entre chá e bolinhos.

O otimismo do cenário cai bem rápido se voce souber onde olhar: estamos falando de uma civilização que acha perfeitamente normal ser espionada por qualquer empresa ou corporação, e que aceita esquemas absurdos de licenciamento de informação sem nem pensar duas vezes. O Tio Bill iria adorar viver nesse cenário.

THS tem suas qualidades, porém – sua visão de bioróides e inteligências artificiais é bem legalzinha, e o cenário em si é facilmente desmontado em partes que possam ser aproveitadas em outros jogos. A visão neutra

que os autores tentam passar (e quase conseguem, às vezes) ajuda um pouco nesse ponto.

Quarta-feira, 2/07/2003, 21:59

Quando a Internet não está disponível, até que ela não faz tanta falta assim. De repende, todos aqueles e-mails que eu sempre recebo não parecem mais tão importantes, e os universos fechados das listas de discussão não passam de lembranças vagas e distantes. Isso também se deve ao fato de que, inconscientemente, sempre considerei os eventos ocorridos na Internet como menos do que reais.

Ela ainda faz falta, porém. Cá estou eu sentado à frente do terminal (que ficou com muito mais cara de terminal burro agora que o gabinete não está no meu campo de visão) tendo que me esforçar para arranjar o que fazer com ele. Acabei decidindo por exercitar a LER anotando notas miscelâneas depois de enjoar de Heroes III duas vezes seguidas no mesmo dia.

Recentemente, eu andei surfando na assim chamada crista da onda da ficção científica, lendo a maioria do “Pattern Recognition” do William Gibson e, agorinha há pouco, terminando o Transhuman Space. Pode ser que o Gibson bata o pé e diga que o último livro dele não é de ficção científica porque se passa na época atual, mas eu acho essa uma desculpa meio fraquinha.

Ele escreveu o negócio exatamente do mesmo jeito que escreveu seus romances anteriores (todos extremamente futuristas), e o mundo que ele criou ali não é o nosso, por mais que se diga o contrário. As pessoas lá pensam, falam e agem de uma maneira completamente alienígena. O pessoal do Neuromancer era mais crível do que o daqui.

Para quem já leu os outros livros que ele já escreveu, é óbvio que os truques de linguagem que ele usa aqui são os mesmos que ele já usou antes (ou pelo menos são gerados de acordo com as mesmas regras), mas levados a um nível de exagero absurdo. Um exemplo bem fácil de notar: muitas vezes, as narrativas dos outros livros mencionavam a nacionalidade de um ou mais objetos importados presentes no ambiente, para ilustrar que o mundo realmente não possui fronteiras. Neste aqui, em vários pontos ele chega a quebrar o fluxo da narrativa para disparar uma longa lista de procedências, enumerando as origens de cada peça de mobília de um determinado apartamento, ou congelando um momento de reflexão da protagonista para dizer que as laranjas de Londres são

espanholas ou marroquinas. Dá raiva, se você é do tipo que repara nessas coisas.

Outra marca registrada do “pai do cyberpunk” é o uso de marcas realmente existentes (olhos Zeiss, cyberdecks da Sony). A impressão que ele passa é que “Pattern Recognition” é na verdade uma grande confissão a respeito de uma profunda tara por roupas. A descrição de todos os personagens se resume praticamente a que marca de roupa eles estão usando, e em uma ocasião a pobre protagonista é forçada a falar algo completamente sem sentido apenas para poder mencionar pela sétima vez na mesma página que o bandido que a atacou estava usando roupas copiadas da Prada.

A bizarrice acima nos traz a outra característica da obra que eu achei irritante. O diálogo do livro é basicamente idêntico à narrativa. Todo mundo fala como o William Gibson escreve – se não houvesse mais nada,

dava pra dizer que aquele não é um retrato realista do nosso mundo porque nenhuma pessoa de verdade fala daquele jeito.

O que dá nos nervos nisso tudo (e em mais algumas coisas que eu deixei de fora) é o excesso. Eu adorei quando vi esses truques pela primeira vez nos livros anteriores, sendo usados justamente na medida certa para torná-los algumas das leituras mais divertidas que eu já vi. Agora, a impressão que eu tenho é que o “velho Willie” está desesperadamente tentando mostrar ao mundo que ele ainda é arrojado e inovador, e não um membro da “velha guarda” dos autores de ficção científica modernos.

~ por mestrebira em 06/07/2003.

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