O Mal do Relatório

Muitas pessoas que eu já conheci (inclusive eu mesmo) sofrem de algo que, na minha opinião, deveria ser oficializado como doença psicológica: o Mal do Relatório. Suas vítimas sabem se comunicar por meios textuais com uma habilidade razoável, escrevendo mensagens que são legíveis, seguem um conjunto mínimo de normas gramaticais, e são relativamente livres de erros ortográficos.

Porém, todas essas habilidades lhes deixam as cabeças como condenados deixam a cadeia quando eles precisam aplicá-las no trabalho. Para as vítimas dessa terrível moléstia, escrever um relatório de qualquer espécie é um suplício indizível; começar a fazê-lo requer um esforço que é quase fisicamente doloroso, e fazê-lo bem é tarefa impossível. Os relatórios escritos por aqueles que sofrem do Mal são pouco mais do que uma torrente de palavras complicadas e jargão, formando uma cadeia de idéias que dão voltas incessantes sobre si mesmas e freqüentemente vão parar em becos sem saída. O objetivo, claramente, é “enrolar” o professor ou o chefe e levá-lo a pensar que aquele documento tem uma mensagem a passar.

Apesar de ter “relatório” no nome, o mal é contraído muito mais cedo, quase sempre na temida e abominada aula de redação do segundo grau. Os pobres estudantes têm despejadas sobre suas cabeças inúmeras regras de escrita correta, falácias e práticas proibidas para textos narrativos, descritivos e dissertativos. Entre uma lição e outra, o terrível lembrete de que a redação é uma das partes mais importantes de qualquer vestibular, e quem tirar nota baixa vai ser obrigado a amargar n anos de cursinho. Por causa disso, o atormentado aluno acaba vendo o ato de escrever “a trabalho” como uma tortura sem fim, da qual devem escapar pela aplicação mecânica das regras da aula e rezar para tirar uma nota acima da média. Se por acaso algum deles gosta de escrever por prazer, ele passa a ver as duas coisas como atividades separadas, e seu desempenho acadêmico não mostra nenhuma diferença em relação ao daqueles para o qual as palavras são apenas uma tortura.

Se o Mal do Relatório não for tratado, ele continua pelo resto da vida. Mesmo que o sujeito seja muito bom no seu trabalho, ou destroce sem esforço as provas da faculdade e de outros cursos, “fazer trabalhos” é algo chato, difícil e complicado. A melhor saída dessa encrenca é, como era antes, fazer seguir um punhado de regras mecânicas, escrever o que o professor quer ler (e quanto mais enrolado, melhor), e rezar por uma nota decente.

E como se trata o Mal? A única pessoa que realmente pode fazer isso é o próprio doente. Tudo o que ele tem a fazer é perceber que não existe nenhuma diferença entre escrever para um relatório e escrever para qualquer outra finalidade. As coisas que o individuo deve fazer para ser entendido em um relatório são as mesmas que ele faz para ser entendido naqueles e-mails que manda para a mãe. “Escrever um relatório” é a mesma coisa que contar o que você fez em uma ocasião qualquer, ou que contar como alguma coisa funciona para um amigo. Não há a necessidade de ser pomposo ou enrolado, e de usar termos técnicos complicadíssimos para algo simples. Também não há a necessidade de acertar tudo perfeiramente da primeira vez. Basta sentar o posterior na cadeira e escrever. Sempre se pode dar uma relida no resultado e corrigir onde for necessário.

Se houver alguém que se proponha a revisar o texto, melhor ainda! Curar-se do Mal do Relatório é uma bênção tão grande para essas bravas almas quanto para o próprio paciente.

~ por mestrebira em 22/06/2004.

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