RPGs Cyberpunk

Ultimamente eu tenho lido o livro básico do Cyberpunk 2020, que eu comprei faz alguns anos em Curitiba sob circunstâncias bastante inusitadas. Este é um jogo cuja primeira edição (chamada simplesmente de Cyberpunkfoi lançada em 1988. A versão 2020 é de alguns anos depois, mas mesmo assim é engraçado ver o quão datada a tecnologia “avançada” deles é.

O capítulo de equipamento começa dizendo que, no futuro, todo mundo vai estar se locomovendo o tempo todo, então todo equipamento que vale a pena possuir será portátil. Até aí, tudo bem. Mas, examinando as listas de equipamento, você vê que é tudo coisa que já existe hoje, em 2004, e que às vezes está até um pouco atrasada. Para ter um celular, um personagem de CP2020 paga o equivalmente a 200 dólares por mês. O aparelho em si custa 800 dólares, sendo que as únicas coisas que você pode fazer com ele são discar e falar. Um dos ítens é chamado de “computador de bolso”, mas a descrição diz que ele é apenas uma calculadora programável com teclado e 100 páginas de memória alfanumérica (que custa 200 dólares).

Eu tive a oportunidade de dar uma olhada no Chromebook 1, um dos primeiros suplementos de equipamento para o jogo. Logo no começo, ele mostra uma coleção impressionante de aparelhos eletrônicos portáteis, cada um com uma finalidade diferente. Existe um aparelinho cujo único propósito é chamar táxis, um só para ler notícias baixadas da Rede, e outro só para mostrar um mapa com a sua posição atual.

Um “estúdio de gravação digital”, com a incrível capacidade de adicionar dois ou três efeitos a uma música e gravá-la em 10 mídias de cada vez (ou seja, nada que você não consiga fazer com um computador e um punhado de gravadores de CD), sai por 24.000 dólares. Vale a pena notar que um traje de mergulho capaz de agüentar profundidades de até 4.000 metros, listado algumas páginas adiante, sai pela metade do preço. Qualquer um que queira mestrar uma campanha mais atualizada de CP2020 vai ter que dar uma garibada séria na tecnologia pessoal do jogo.

Outra coisa que me espanta, até nos jogos mais modernos, é a assiduidade com a qual os autores evitaram as questões da cópia digital e da pirataria. Os personagens podem até ser criminosos mercenários que não vêem nada errado em matar gente a torto e a direito, mas eles ainda pagam por suas músicas e por seus programas de computador. Simplesmente não existe outro jeito de obtê-los! Shadowrun é infestado de hackers ultra-tecnológicos que odeiam “o Sistema” e as megacorporações, mas que fazem exatamente a mesma coisa que elas na hora de transferir programas ilegais entre si – cobram preços inflados e tomam todas as medidas possíveis e imagináveis para que ninguém tenha acesso a eles sem pagar.

Os livros de ficção científica de GURPS, a começar pelo Ultra-tech, já reconhecem a possibilidade de que programas de qualquer coisa em formato digital pode ser copiada livremente, mas preferem evitar as implicações a todo custo. Programas de computador de NT 8 e 9 contém “proteções eficientes contra cópia não-autorizada”, com redutores altíssimos para personagens que queiram quebrá-las. Se eu me lembro bem, é impossível copiar qualquer coisa mais avançada que isso sem pagar…

Em GURPS Cyberpunk, são discutidos uma miríade de impactos da tecnologia na sociedade, desde clonagem a implantes e “liberdade de informação”. Mas copiar programas sem pagar por eles é praticamente impossível porque todos os programas estão em cartuchos de ROM e o redutor para copiar um deles é algo como -14.

Transhuman Space é um cenário otimista, onde, segundo as palavras do autor na introdução, todas as maravilhosas tecnologias da ficção científica se desenvolveram até seu potencial máximo, sem serem “seguradas” pela política ou por interesses econômicos escusos. Porém, como já acontecia nos outros suplementos, tudo o que é digital é pago e praticamente impossível de copiar. Pegar as coisas de graça é coisa de piratas comunistas do Sudeste Asiático. Todo o tráfego da Internet é assinado, criptografado e monitorado – novamente, a parte da Rede que é “livre” é território de piratas comunistas.

As empresas do cenário inventam táticas mirabolantes para extrair dinheiro dos seus fregueses – ficou com aquela música na cabeça? Você está se utilizando da nossa propriedade intelectual e deve pagar por isso! Não consegue parar de cantarolá-la? Você está realizando uma exibição pública de nossa propriedade intelectual, o que é explicitamente proibido pelo Acordo de Licença do Usuário Final!

Se essa é a idéia deles de um cenário otimista, acho que eles não são tão criativos quanto se acha.

~ por mestrebira em 04/09/2004.

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