Resenhas Mil

Uma coisa que eu andei fazendo ultimamente (além de trabalhar como um cachorro, de livre e espontânea vontade) é ler um punhado de livros e escutar músicas pelas quais eu paguei, para variar.

Quanto à música, eu só tenho uma coisa a dizer: a Björk é o avatar da bizarrice. O último CD dela (que me custou os olhos da cara, diga-se de passagem) tem pelo menos umas três faixas que podem passar pela Cantata of Empty Voices, a melhor magia para dizimar cidades em Exalted. É tudo feito com vozes humanas e programação. Pegue Triumph of a Heart em sua aplicação P2P preferida e dê umas boas risadas, sempre lembrando que a própria artista está lá sacudindo sua bandeira pirata e não vai te processar.

Quanto aos livros, foram quase todos conseguidos da Baen Free Library, mais um ótimo lugar para baixar coisas de graça sem sentir a alabarda das editoras, gravadoras e produtoras da vida: tudo lá está escrupulosamente dentro da lei, já que é a própria editora que está liberando os títulos.

Isso não garante a qualidade, mas pelo menos dá para ler alguma coisa de ficção científica sem pagar grana demais por isso.

Na ordem de leitura, em lista itemizada por um par de motivos completamente opostos:

Freehold do Michael Z. Williamson. Em três palavras: é uma bosta. Eu me irrito com autores que insistem em usar suas obras de ficção como uma plataforma para exibir suas visões políticas, o que sempre me impediu de gostar de verdade dos livros do David Weber. Este sujeito aqui, porém, leva essa gafe ao nível do ridículo. Isto aqui é um folheto de propaganda libertária utópica escrito por alguém absolutamente vidrado em armas grandes e ação militar.

Começamos a história sendo informados de maneira resumida sobre a vida rotineira de Kendra Pacelli , uma sargento (sargenta?) do exército das Nações Unidas da Terra com nome e aparência de estrela pornô de baixo orçamento. Seu emocionante trabalho consiste em sentar na frente de um computador o dia inteiro e fingir que está sendo produtiva. Isso até o dia em que ela é indiciada em um escândalo de corrupção envolvendo desvio de verbas e materiais, do qual ela é completamente inocente. Em poucas páginas, fugindo para salvar a pele, ela é expatriada para o planeta Grainnie.

A partir daí, o autor faz de tudo para dar a entender que esse lugar isolado do resto do universo é o maior paraíso já criado pela humanidade. A aflita sargento torna-se a câmera pela qual vemos o quão maravilhosa é a vida ali. Grainnie não tem nenhuma lei digna de menção, e o governo existe basicamente para sustentar o exército e proteger o planeta de invasões hostis. O sol do sistema é uma estrela azul, o que torna o lugar quase insuportavelmente quente.

Juntando essas duas coisas, o autor conclui que o lugar é uma utopia fantástica onde as leis de mercado automagicamente garantem que todo mundo viva em harmonia, nudez não é nenhum tabu e todo mundo faz sexo o tempo todo! Existe até uma fauna cheia de predadores mortais para explicar porque todo mundo anda armado (apesar da maioria da população morar em cidades)!

Libertarianismo, para quem está meio perdido, é basicamente uma anarquia de direita. Em uma sociedade anarquista ideal, não existe governo, tudo é de todos, e todos trabalham pelo bem comum. Em uma sociedade libertária ideal também não há governo, mas todos os seus membros são indivíduos particulares. As únicas leis são aquelas ditadas por contratos particulares firmados entre dois ou mais indivíduos. Trabalho, dinheiro, e propriedade privada são conceitos importantíssimos, quase sagrados, e é por respeito a eles que os membros da sociedade vivem em harmonia.

Ambos os lados são uma fantasia cor-de-rosa, porque ambos partem do pressuposto que todos os membros da sociedade são boas pessoas, que todo mundo vai seguir as regras e que ninguém vai sequer pensar em explorar o sistema em benefício próprio.

Isso fica bem claro ao longo da metade de Freehold dedicada a descrever o lugar. A impressão é que o autor até tentou colocar alguns defeitos na sociedade, mas não conseguiu fazer com que eles parecessem defeitos de verdade. Processos judiciais acontecem a torto e a direito, mas todo mundo é extremamente amigável com todo o resto. Existem grandes empresas, mas não tem monopólio porque todo mundo só compra nas lojinhas de esquina.

No começo do livro, a sociedade terrestre passa de um lugar onde ocorrem escândalos de corrupção a um inferno comunista cujo governo autoritário domina as outras nações, mas que não possui sequer um integrante competente ou que possua mais de dois neurônios.

Quando começa a guerra entre os dois (é claro que iria haver uma guerra…), o autor gasta a outra metade do livro mostrando como cada habitante de Grainnie é um Super Saiyajin capaz de enganar os vermes terráqueos com os truques mais batidos que existem.

Já escrevi demais sobre essa porcaria… Se você é um zelota fanático do libertarianismo, provavelmente vai gostar do livro. Se não, provavelmente vai tomá-lo pelo desperdício de bytes que realmente é.

~ por mestrebira em 20/12/2004.

2 Respostas to “Resenhas Mil”

  1. Wert, já devem ter lhe dito que o barato sai caro. Mas de graça não valer nada até que parece rasuável, hein, mister? Uma porcaria que não vale o teclado onde foi digitado… é o futuro do lixo literário!

  2. Bom, eu não disse que tudo lá é lixo – apenas que este livro em particular é uma bosta.

    Particularmente, eu recomendo os livros do Eric Flint. São todos bem engraçados, com personagens legais e histórias envolventes. Acho que ajuda o fato do cara ser um historiador ao invés de um engenheiro ou veterano de guerra.

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